domingo, 22 de novembro de 2009

COMO COMEÇAR


Por Sheyla Graziela

Publicado em 2005
(Menção Honrosa - VIII Prêmio Ideal Clube de Literatura)


Mais uma vez o prazo se esgota e eu nem sequer descobri como começar. É sempre assim, o papel e o lápis ficam me observando por horas de uma maneira quase ameaçadora, até que, retribuindo a ameaça, resolvo usar o word. No computador é mais fácil organizar as coisas, principalmente para mim que tenho a mania horrorosa de riscar o que não gosto, dificilmente uso essa tal de borracha. Diante da tela nada muda, continuo me contorcendo na cadeira, com uma ânsia que torna meu potencial criativo cada vez mais distante. Meu estômago dói, deve ser a gastrite nervosa (cultivada por anos de muita preocupação e pouca produtividade). Quando era criança ouvia o meu falar: “Por que você não deixa de se preocupar com a prova e vai estudar?” E eu continuava a reclamar e maldizer o infortúnio que era aquela prova na minha vida, nem sobrava tempo para estudar.

Preciso escrever sobre o Mercado São Sebastião. Não é tão simples assim, devo cuidar para não cometer os erros anteriores. Tenho problemas com pontuação...E tantos outros. A minha pontuação é quase inevitável, acho que sou influenciada pela Clarice (minha escritora favorita), ela até que usa muitas vírgulas e pontos finais mas não absorvo durante a leitura tais pausas, para mim a escrita “clariciana” tem uma cadência ininterrupta, isso me atinge e transforma.

- Escrever não é tão fácil. Eu preciso de inspiração, uma noite estrelada, alguns chocolates e até um pouco de melancolia. Talvez eu tenha escolhido a profissão errada, no jornalismo não há tempo para essas “frescuras”, o negócio é escrever informações rápidas e objetivas. E o que nos incomoda, nos aflige, passa despercebido? Nossas impressões mais íntimas e subjetivas não podem ser desabafadas num texto jornalístico? E para onde vão?

É impossível falar do Mercado São Sebastião sem invocar cores, sabores e aromas, essas são nossas fontes incontestáveis. É só colocar o primeiro pé dentro do mercado para sentir a profusão de temperos. Lá está o cuscuz quentinho, cuscuz esse que minha avó chamava de pão de milho, no Rio de Janeiro cuscuz é um bolinho de farinha de milho ou de tapioca assado na grelha, e eu fiquei imaginando a minha vovozinha chegando ao Rio e pedindo pão de milho qual seria o susto dela ao se deparar com um pão feito de milho, ao invés do seu tão almejado cuscuz.

E aquele prato de caldo de mocotó ali, olhando para mim como se espalhasse seu aroma com a única intenção de me atingir? Dizem que caldo de mocotó é bom pra fraqueza e até para curar ressaca (que não deixa de ser uma fraqueza). E aquela panela? Quem está lá é um tal de sarrabulho, que em alguns lugares é chamado de sarapatel. É uma iguaria feita com sangue coagulado, que provoca o apetite de alguns a náusea de outros.

No mercado tem polpa de macaxeira, goma, polvilho doce, cravo, erva-doce, rapaduras, castanhas, gengibre, mel de abelha, carimã... Ops! Mas o que é carimã? Minha senhora, carimã é a mesma coisa que goma? – Não, são igualmente feitos de macaxeira, mas utilizando processos diferentes. Depois de explicados os processos, descobri: carimã é o que na minha terra (região do Cariri) é conhecida por puba. E puba é uma massa de macaxeira “podre” usada para fazer bolos e mingaus.

E o alfenim está por toda parte no mercado. O alfenim nada mais é que mel de engenho (o mel que dá origem à rapadura) num ponto especial, quando o mel vai esfriando a pessoa vai puxando e repuxando com a mão até ele ficar esbranquiçado até que pode-se modelar para que ele endureça com determinado formato. Uma delícia só!

- Agora, chega de falar de comida. No mercado tem medicamentos produzidos pela mãe natureza. O Dr. Raiz, conhecido por seu Anésio é quem dá a receita: “Pra dor de barriga o bom mesmo é casca de marmeleiro!” Lá tem jatobá, gergelim, endro, camomila, casca de angico, pau-d’arco, mulungu,, alecrim, macela, mororó, embiriba, sucupira, catuaba. Tem tanta erva que não caberia nesse papel, mas o que fica mesmo é a lição do seu Anésio: “Tem que ter amor pelo que faz senão você não chega a lugar nenhum”.

E eu fiquei me perguntando: será que dá tempo sentir amor por um texto? No jornalismo escrever se tornou uma coisa tão mecânica, acho que antigamente as pessoas conheciam o jornalista pelo seu jeito próprio de escrever, jornalista tinha estilo, hoje ninguém nem repara quem escreveu essa ou aquela outra reportagem e se visse o nome do repórter não faria tanta diferença, só quem presta atenção nesses detalhes são jornalistas, estudantes de jornalismo, ou alguém que tem parentes nessa área. Não dizem que as mulheres se vestem para outras mulheres, os jornalistas são assim, escrevem para outros jornalistas. São eles que dão o parecer favorável ou contrário ao que os outros escrevem.

Voltando ao mercado, lá tem frutas, carnes, cestas, roupas, artigos de cozinha, ferragens, artigos de umbanda. É um lugar rico em variedade e em calor humano, as pessoas são atenciosas, acolhem o freguês como um já íntimo conhecido, é o grande diferencial. Parece que São Sebastião concedeu a essas pessoas um carisma especial e uma força sem tamanho, o trabalho diário não as embruteceu, permanecem com um sorriso sincero e acolhedor. Talvez o texto tenha ficado estranho demais, mas, já pensou como as coisas seriam diferentes se o trabalho diário não embrutecesse os jornalistas. Já pensou se nas redações dos grandes jornais os estudantes não perdessem aquela chama incandescente de ideais que eles têm dentro da universidade. Acho que falta amor...É Seu Anésio, a gente tem muito o que aprender com o senhor!

2 comentários:

Rafael disse...

Se garante. Minha escritora preferida!!!

Stella disse...

Magnifico, Sheyla!!! Senti o cheirinho, o sabor e ate vi a grande mudança do Mercado Sao Sebastião! Parabens!!!

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